
Certa vez um bom amigo, preocupado com a sua vida, com a fragilidade da sua existência, com a inoperância do seu relacionamento, com o falso armistício com o seu pai, com o alheamento dos amigos, me disse que tinha perdido a vontade de lutar. Tive dificuldades em responder, trinquei a bifana quente e assustada, olhei para o folclore das roulotes e esperei que uma brisa me ajudasse. Respondi que sempre seria assim, que teria que vencer a espessura dos hábitos, que teria que conciliar a sua procura pelo transcendente com o imanente, que teria de encontrar sonho nas coisas mais insignificantes. Ele abocanhou a sua bifana, deu um trago na cerveja, respirou suavemente e olhou para mim. Voltou à cerveja e finalmente disse que não compreendia o que lhe tinha dito, que era isso de transcendente, de sublime, quando no seu horizonte nada de extraordinário lhe aparecia, que raio de discurso era o meu. Tive um momento de surpresa, estava convencido que bastava. Quando tentei articular uma resposta, uma voz, cínica, sobrepõem-se à minha e diz:
- Então, o amigo quer ser feliz, é?
Continuou, sem ninguém lhe responder.
- Pois, se quer e não sabe, é parvo, pois os manuais já estão escritos.
Respondeu-lhe o meu companheiro.
- Ouça, não me parece em grande forma para me ensinar o caminho da felicidade.
Sorriu, voltou-se para mim e disse:
- Talvez seja melhor, ouvir a treta, aqui do seu amigo. Do equilíbrio entre o transcendente e o imanente, não é? Pareceu-me uma boa teoria.
Não respondi imediatamente, olhei para o chão e franzi o olhar. Recordei-me dos momentos em que tive a certeza que era completamente feliz. Pareceu-me o estado mental correcto para fazer face à provocação. Disse-lhe em seguida:
- Talvez tenha razão, não me sinto nada preparado para ensinar o caminho da felicidade. Talvez nos possa ajudar.
Pensei que o homem me iria dizer um conjunto de banalidades, que cada um faz o seu caminho, que na cama que fizeres nela te deitarás, que o mundo está ali fora à nossa espera, mas não, e para surpresa...
- Olhe, o caminho da sua felicidade e da do seu amigo, está na vossa capacidade de alheamento...
Franzi o olhar e voltei-me para o meu desalentado amigo. Ele retribui-o um olhar estupefacto. O nosso estranho companheiro continuou...
- Falo-vos de alheamento porque é a única forma de não sermos confrontados com a realidade medíocre. A lógica desta afirmação precisa, de facto, de ser elaborada. Mas creio que quanto mais longe do mundo prosaico, mais alienados da conceptualização da existência, mais felizes somos.
O homem, tinha um discurso estranho, mas coerente. Atrás de um bigode à taxista, de um cabelo lambido, de um blusão a imitar couro e de um conjunto de sapato bicudo e meia branca, escondia-se um conhecimento que estava interessado em explorar, e perguntei.
- Mas, à alguma forma de promover esse alheamento?
Pensou um pouco e respondeu.
- Não me parece, o êxito de uma existência, com tudo quanto tem de singular, consiste na fatalidade que a domina. Ou melhor, nas fatalidades.
O meu amigo, que se tinha mantido ausente da conversa, deu o gole na cerveja e perguntou.
- Está a referir-se às agruras da vida, aos imponderáveis, às dificuldades de comunicação?
O nosso interlocutor sorriu. Viram-se os dentes mal tratados por anos de tabaco rasca. Pegou num lenço. Levou-o ao nariz, antes de se assoar disse:
- Parece que me estou a exprimir em forma de enigma. Mas as fatalidades a que me referia não estão nada relacionadas com o que foi dito, pelo contrário, refiro-me ao que o senso comum considera como rampa de lançamento para a felicidade. Refiro-me à inteligência, à erudição, à sageza, à educação ao conhecimento e à beleza.
O meu amigo abanou a cabeça e disparou.
- Isso é um absurdo.
- Mas olhe que não. A beleza, pode afastar quem nos rodeia daquilo que realmente somos. As restantes, são mais graves, quanto mais evoluímos nessas características, mais conhecemos as angustias e ressentimentos da existência. Quem vive no meio de ressentimentos e angustias não pode ser feliz. A única fuga é o alheamento, ou então não procurar a elaboração.
Fez-se um pouco de silêncio. O momento impunha. Articulei um comentário.
- Mas é um processo imbecil o Homem não se aperfeiçoar...
- Por essa razão, é que a única fuga é o alheamento. É a construção de um mundo interior a toda a prova, que nos agrade e conforte sempre que nos acolha. É a forma de contrabalançar o restante. Quem não gosta de si, tem dificuldades em gostar de alguém.
- E se seleccionarmos as nossas atenções...
- É apenas uma panaceia, quem começar nunca mais termina. As características fatais assim o exigem. Também, em tempos, pensei que se meditar apenas sobre problemas que o sejam verdadeiramente poderia livrar-me da caminhada fatal. Mas não, neste processo confrontei-me com a escolha do verdadeiramente importante, que por si só me consumia todo o tempo. Sem remédio...
Estava aturdido com a resposta, precisava de saber mais...
- E qual é a conclusão?
- A conclusão? Bom, parece-me que quem incorporar as características fatais em si pode optar. Pode querer alhear-se e ser feliz, ou continuar a sina fatal e apenas ter ténues momentos de felicidade. Mas ser mais consciente do mundo que o rodeia.
O homem olhou para o relógio, disse que já era tarde. Tinha que trabalhar. Ia apanhar o turno das seis da manhã. E foi-se embora num passo lento.
Recordo-me muitas vezes deste encontro. Recordo-me das contradições. Recordo-me de um homem com aspecto de marialva e discurso sábio. Tenho agora a certeza de que o que é verdadeiramente real é a perplexidade constante em que vivemos.
Quando voltava da feira de roulotes para casa. O cacimbo da noite tinha coberto os vidros do automóvel. Enquanto conduzia, procurando o caminho por entre o limpa-vidros, voltei-me para o meu amigo melancólico e perguntei-lhe:
- Sabes, algum outro caminho para a felicidade?
- Não. Não sei se quero ser feliz.
FIM
- Então, o amigo quer ser feliz, é?
Continuou, sem ninguém lhe responder.
- Pois, se quer e não sabe, é parvo, pois os manuais já estão escritos.
Respondeu-lhe o meu companheiro.
- Ouça, não me parece em grande forma para me ensinar o caminho da felicidade.
Sorriu, voltou-se para mim e disse:
- Talvez seja melhor, ouvir a treta, aqui do seu amigo. Do equilíbrio entre o transcendente e o imanente, não é? Pareceu-me uma boa teoria.
Não respondi imediatamente, olhei para o chão e franzi o olhar. Recordei-me dos momentos em que tive a certeza que era completamente feliz. Pareceu-me o estado mental correcto para fazer face à provocação. Disse-lhe em seguida:
- Talvez tenha razão, não me sinto nada preparado para ensinar o caminho da felicidade. Talvez nos possa ajudar.
Pensei que o homem me iria dizer um conjunto de banalidades, que cada um faz o seu caminho, que na cama que fizeres nela te deitarás, que o mundo está ali fora à nossa espera, mas não, e para surpresa...
- Olhe, o caminho da sua felicidade e da do seu amigo, está na vossa capacidade de alheamento...
Franzi o olhar e voltei-me para o meu desalentado amigo. Ele retribui-o um olhar estupefacto. O nosso estranho companheiro continuou...
- Falo-vos de alheamento porque é a única forma de não sermos confrontados com a realidade medíocre. A lógica desta afirmação precisa, de facto, de ser elaborada. Mas creio que quanto mais longe do mundo prosaico, mais alienados da conceptualização da existência, mais felizes somos.
O homem, tinha um discurso estranho, mas coerente. Atrás de um bigode à taxista, de um cabelo lambido, de um blusão a imitar couro e de um conjunto de sapato bicudo e meia branca, escondia-se um conhecimento que estava interessado em explorar, e perguntei.
- Mas, à alguma forma de promover esse alheamento?
Pensou um pouco e respondeu.
- Não me parece, o êxito de uma existência, com tudo quanto tem de singular, consiste na fatalidade que a domina. Ou melhor, nas fatalidades.
O meu amigo, que se tinha mantido ausente da conversa, deu o gole na cerveja e perguntou.
- Está a referir-se às agruras da vida, aos imponderáveis, às dificuldades de comunicação?
O nosso interlocutor sorriu. Viram-se os dentes mal tratados por anos de tabaco rasca. Pegou num lenço. Levou-o ao nariz, antes de se assoar disse:
- Parece que me estou a exprimir em forma de enigma. Mas as fatalidades a que me referia não estão nada relacionadas com o que foi dito, pelo contrário, refiro-me ao que o senso comum considera como rampa de lançamento para a felicidade. Refiro-me à inteligência, à erudição, à sageza, à educação ao conhecimento e à beleza.
O meu amigo abanou a cabeça e disparou.
- Isso é um absurdo.
- Mas olhe que não. A beleza, pode afastar quem nos rodeia daquilo que realmente somos. As restantes, são mais graves, quanto mais evoluímos nessas características, mais conhecemos as angustias e ressentimentos da existência. Quem vive no meio de ressentimentos e angustias não pode ser feliz. A única fuga é o alheamento, ou então não procurar a elaboração.
Fez-se um pouco de silêncio. O momento impunha. Articulei um comentário.
- Mas é um processo imbecil o Homem não se aperfeiçoar...
- Por essa razão, é que a única fuga é o alheamento. É a construção de um mundo interior a toda a prova, que nos agrade e conforte sempre que nos acolha. É a forma de contrabalançar o restante. Quem não gosta de si, tem dificuldades em gostar de alguém.
- E se seleccionarmos as nossas atenções...
- É apenas uma panaceia, quem começar nunca mais termina. As características fatais assim o exigem. Também, em tempos, pensei que se meditar apenas sobre problemas que o sejam verdadeiramente poderia livrar-me da caminhada fatal. Mas não, neste processo confrontei-me com a escolha do verdadeiramente importante, que por si só me consumia todo o tempo. Sem remédio...
Estava aturdido com a resposta, precisava de saber mais...
- E qual é a conclusão?
- A conclusão? Bom, parece-me que quem incorporar as características fatais em si pode optar. Pode querer alhear-se e ser feliz, ou continuar a sina fatal e apenas ter ténues momentos de felicidade. Mas ser mais consciente do mundo que o rodeia.
O homem olhou para o relógio, disse que já era tarde. Tinha que trabalhar. Ia apanhar o turno das seis da manhã. E foi-se embora num passo lento.
Recordo-me muitas vezes deste encontro. Recordo-me das contradições. Recordo-me de um homem com aspecto de marialva e discurso sábio. Tenho agora a certeza de que o que é verdadeiramente real é a perplexidade constante em que vivemos.
Quando voltava da feira de roulotes para casa. O cacimbo da noite tinha coberto os vidros do automóvel. Enquanto conduzia, procurando o caminho por entre o limpa-vidros, voltei-me para o meu amigo melancólico e perguntei-lhe:
- Sabes, algum outro caminho para a felicidade?
- Não. Não sei se quero ser feliz.
FIM

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